No hospital, volta e meia aparece um doente com um diagnóstico terminal, como o Sr. A., humilde, fragilizado, cheio de dores que atribui a uma hérnia, alguém lhe há-de ter explicado que não, que tinha um tumor, estado avançado, que a Medicina não tinha muito para lhe oferecer.
Houve também a Srª F., que foi o adulto que eu vi em pior estado, era nova, o corpo como que lhe apodrecia, pensei no sofrimento do pai, que a acompanha. 5 minutos com ela e não lhe esqueço o rosto emagrecido, o lenço a tapar o cabelo caído. Disseram-me que morreu na semana passada.
Para todos eles, uns mais do que outros, a vida foi traiçoeira. A rasteira do tempo fê-los tropeçar numa cama de hospital. E o tempo deixou de ser contado em anos, para ser contado em dias. Há quantos dias foi internado. Há quantos meses se sente assim. Quantos meses, semanas, dias, irá viver.
Não controlam a sua vida, porque ela é controlada pela doença, epicentro sísmico com data por vezes pouco precisa, a abanar réplicas até ao abalo final.
Eu vejo isto quase todos os dias. E pior. E a vida ganha sempre outro sentido. Mas não sei como é que isto se explica. Não sei como se convence alguém saudável a aproveitar o que tem.
Tens o mais importante, a saúde, é frase que cá fora, do outro lado das paredes brancas do hospital, onde não cheira a desinfectante, é banal. É um bem assumido. Por vezes pouco valorizado.
Fica-se preso em rotinas, tolhido por medos, encostado a uma tristeza que dói, corrói lentamente, faz perder o brilho. Fica-se numa escuridão porque ela traz o conforto do conhecido, legitima o medo de arriscar. A vida não me dá mais, diz-se, indiferente às portas que se vão abrindo pelo caminho.
E eu não sei mostrar que não. Que a vida é o que fazemos com ela. Que há maus momentos, é certo, mas que eles acabam e vem um bom logo a seguir, é só preciso ter a coragem de o encontrar. Que as responsabilidades que nos são dadas só caem nos ombros de quem é grande o suficiente para as segurar. Que às vezes é só preciso estender a mão para segurar na daqueles que nos tentam puxar para que a escuridão, aos poucos, fique para trás.
Ser feliz com o que temos pode nem sempre ser fácil. Ser feliz implica ter a coragem de o ser. Implica deitar a mão ao que temos, antes que seja tarde mais. Viver da melhor maneira possível. Implica perceber o quanto sortudos somos por a felicidade, para nós, ser uma escolha, por estar ao nosso alcance e não ser já uma oportunidade que pertence ao passado.
Como é que isto se explica?